Felicidade e morte em “Jules e Jim”

Duas pontes desempenham papéis dramáticos opostos no admirável Jules e Jim, de François Truffaut. A primeira entra em cena aos 13 minutos de filme, quando Catherine (Jeanne Moreau), Jules (Oskar Werner) e Jim (Henri Serre) vivem a plenitude de sua felicidade a três. Catherine, disfarçada de homem para uma brincadeira anterior, propõe que os três disputem uma corrida ao longo da ponte – na verdade, a passarela de Valmy sobre a via férrea, na localidade de Charenton-le-Pont, arredores de Paris.

A cena exala uma alegria infantil e uma cumplicidade que vai se concretizar na relação amorosa a três. Dali saiu a imagem mais divulgada do filme, a foto que abre esse post. Reinout van Schie, no blog One Shot, destacou a conexão entre as roupas listradas dos personagens e as grades da passarela, o que gera a percepção de harmonia e uníssono. Germaine Greer, por sua vez, enfatizou a tomada que corre em paralelo ao rosto de Catherine, envolvendo o espectador no prazer da brincadeira.

Abaixo, duas fotos da filmagem da cena, comandada pelo fotógrafo Raoul Coutard.

E aqui um vídeo que gravei atravessando a instalação montada na exposição Truffaut, no MIS-SP. As imagens da corrida se propagam numa sucessão de cortinas que leva o visitante inevitavelmente ao encontro da luz do projetor. O som reproduz em looping a respiração ofegante de Jeanne Moreau.

Esta cena já foi muito citada e copiada em diversos filmes de várias latitudes. Atualmente, está em cartaz em Um Filme Francês, de Cavi Borges, reencenada na passarela do MAM-RJ.

A segunda ponte de Jules e Jim aparece numa das últimas sequências do filme. Catherine chama Jim para contar-lhe alguma coisa dentro do carro, pede a Jules que os observe e dirige decididamente para a extremidade de uma ponte interrompida. O suicídio e a morte de um dos companheiros, sob a assistência do outro, configura um final surpreendentemente amargo para um filme que parecia festejar a vida e a liberdade no amor.

A velha ponte onde foi filmada esta cena fica em Limay-Mantes-la-Jolie, também nas cercanias de Paris. Ei-la segmentada até hoje:

Uma curiosidade a mais: em ambas as sequências Truffaut inseriu o traveling que acompanha lateralmente o deslocamento sobre o rosto de Catherine, numa espécie de rima visual, uma ponte entre as duas pontes.

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Art de Maillart

Heinz Emigholz, o cineasta alemão especializado em filmes sobre arquitetura, dedicou um curta às pontes construídas pelo engenheiro suíço Robert Maillart (1872-1940). As Pontes de Maillart foi exibido na recente mostra de Emigholz no Instituto Moreira Salles. Todas as fotos desse post são frames do filme.

Conforme o estilo predominante nos filmes do diretor, este curta também se compõe de uma sucessão de planos fixos, pouco diferindo de um slide show com som ambiente. O objetivo é destacar os detalhes arquitetônicos que definem a personalidade das construções e a relação das pontes com a paisagem circundante.

No caso das pontes de Maillart, construídas em concreto armado nos anos 1930 e 40, vistas hoje elas parecem comuns, funcionais, isoladas no meio do mato ou em rodovias áridas do interior da Suíça. Mas a seleção de enquadramentos de Emigholz chama atenção para os pormenores inovadores, como os arcos alongados, os pilares em forma de cogumelo e a distribuição elegante das massas de concreto.

O trecho abaixo, o único disponível no Youtube, não mostra exatamente uma ponte, mas a laje de sustentação de uma estação de tratamento de água com pilares em cogumelo.

 

Engenharia poética

Um post que publiquei em 2010 a respeito da minha paixão por pontes.
Fica aqui como um manifesto.

Foto: Rosane Nicolau

É fácil me agradar. Basta me levar para conhecer mais uma ponte. Ou me presentear com qualquer coisa relativa a pontes. Nas minhas viagens, não deixo de explorar as pontes dos lugares que visito. Gosto de vê-las do alto, atravessá-las a pé, passar de barco sob seu arco, fotografá-las de todos os ângulos. Se tivesse que apontar minha preferida, não saberia escolher entre a majestosa do Brooklyn, a buliçosa Howrah de Calcutá, a lírica Pont Neuf de Paris ou a “galeria” variada do rio Sumida, em Tóquio. 

Pontes são a poesia convertida em engenharia. Sua extensão metafórica é quilométrica. Elas aproximam pessoas, superam obstáculos, suprimem abismos, desvendam panoramas. Voam como pensamentos. São as primeiras a explodir nas guerras e as últimas a se percorrer quando se deixa um bairro, uma cidade ou mesmo um país. Como cenário externo de encontros de amor, talvez só percam para os banquinhos dos parques.

Update: Soube pelo meu amigo Julio Miranda, engenheiro, que pontes e viadutos são chamados de “obras de arte especiais”. Faz sentido em relação às pontes, mas tenho minhas dúvidas quanto aos viadutos.

Foto: Carlos A. MattosUm dos motivos que me levaram a Florianópolis na semana passada foi adicionar mais uma ponte a minha coleção de recuerdos. A ponte Hercílio Luz está em obras de restauração até o segundo semestre de 2012, daí que não pude trafegar no seu leito de ferro. Mas a contemplei de todos os ângulos possíveis. Floripa tem luxos como um serviço de atendimento a quem visita essa obra. Assim pude chegar bem perto do canteiro, com sua algaravia de metais, madeira e concreto.

Foto: Carlos A. MattosDiz a Wikipedia que a Hercílio Luz é a maior ponte pênsil do Brasil e uma das maiores do mundo. Inaugurada em 1926, foi a primeira ligação entre a ilha de Floripa e o continente. Descansa sobre as duas margens da baía um peso aproximado de 5 mil toneladas. Mas nem os números, nem os superlativos valem mais do que a festa de vê-la iluminada à noite, mesmo nesse período de restauração.

Abaixo, mais duas fotos que fiz da Hercílio Luz, sempre com a retilínea ponte Colombo Sales aparecendo ao fundo.

Foto: Carlos A. Mattos

Foto: Carlos A. Mattos

O post original: http://carmattos.com/2010/04/02/pontes/