Mecânica e movimento

Joris Ivens fez o primeiro filme importante inteiramente dedicado a uma ponte na história do cinema. Em 1928, ele começava carreira, vindo da fotografia, e procurava um tema que lhe permitisse explorar padrões de movimento. Era um tempo de fascinação pela mecânica e pela velocidade, o que transparece em cada sequência de A Ponte. Por sugestão de um engenheiro, Ivens decidiu documentar as atividades em torno da recém-construída ponte móvel sobre o rio Maas, em Roterdã.

Uma autorização especial da ferrovia lhe permitiu escalar as diversas partes da ponte e tirar vantagem dos pontos de vista mais altos. Sua câmera Kinamo portátil ora está dentro de um trem cruzando a ponte, ora está subindo ou descendo junto com o pontilhão que, quando suspenso, abre passagem para as embarcações de maior porte. A narrativa é simples: os trens cruzam a ponte velozmente enquanto os navios esperam no rio. Um trem reduz sua velocidade até parar diante do sinal fechado. O pontilhão se ergue e os navios passam. Em seguida, o pontilhão retorna ao seu nível e o trem retoma seu ritmo através da ponte.

Ivens antecipa a reflexividade de O Homem com a Câmera ao incluir um plano dele próprio com sua Kinamo logo no início. É uma senha para o seu interesse pelas similitudes entre a passagem da película no obturador e a passagem das imagens pelos vãos das ferragens. O dinâmico grafismo visual se soma aos reflexos das águas, ao jogo de sombras e aos detalhes de roldanas, engates, alavancas, etc. O cinema, o trem e a ponte como fenômenos da mecânica de precisão a serviço da mobilidade.

Em seu livro sobre Ivens, A. Zalman conta que a montagem foi feita com base num jogo de cartões que o cineasta criou para tomar decisões sem precisar manipular a película. Sua mulher, a fotógrafa Germaine Krull, o acompanhou nas filmagens e publicou muitas fotos no seu livro Metal (à esquerda).

2 comentários sobre “Mecânica e movimento

  1. susana schild 14 de agosto de 2015 / 20:48

    Adorei a iniciativa. Vou acompanhar. Pontes, além de fotogênicas, são tremendamente evocativas. Você vai ter muito trabalho – e vai adorar. Eu também.

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